 | Kathy Gerwig e Verónica Odriozola Crédito: Marianela Jarroub/IPS | Dialogues Hospitais diminuem sua pegada ecológica Por Marianela Jarroud
Os hospitais dos Estados Unidos são o terceiro maior
usuário de energia no setor de prédios comerciais.
SANTIAGO, Chile, 13 de agosto de 2012 (Tierramérica).- A cura está associada a imagens de limpeza e
saúde. Entretanto, os hospitais de nossos dias são
pontos quentes de contaminação e de elevado
consumo de recursos valiosos, como a energia.
Frequentemente esta contaminação se reverte em
doenças, que são tratadas pelos mesmos hospitais
que contribuíram para causá-las, disse ao
Terramérica a coordenadora da Saúde sem Dano dos
Estados Unidos, Kathy Gerwig.
É que “a saúde ambiental não é ensinada nas
escolas de medicina”, acrescentou Kathy, que é
vice-presidente de segurança do trabalho e
encarregada de gestão ambiental da Kaiser
Permanente, um dos sistemas de saúde sem fins
lucrativos mais importantes desse país. Porém, os
hospitais estão começando a notar sua própria
pegada ecológica. A Saúde sem Dano conseguiu
atrair mais de 3,5 mil instituições de todo o
mundo para a Rede Global de Hospitais Verdes e
Saudáveis.
No Chile aderiram os hospitais Illapel, de
Salamanca, e Los Vilos e o Departamento de Saúde
Provincial do Choapa, província da região
Coquimbo. Para ser membro da rede basta se
comprometer com pelo menos dois dos dez objetivos
de sua agenda global: liderança, substâncias
químicas, resíduos, energia, água, transporte,
alimentos, produtos farmacêuticos, edifícios e
compras verdes. A agenda global é de adesão
voluntária. Uma de suas metas inclui a eliminação
total do mercúrio, metal neurotóxico usado em
termômetros e aparelhos para medir a pressão
arterial, entre outros dispositivos médicos.
À campanha contra o mercúrio aderiram sistemas
hospitalares e autoridades nacionais e estaduais
de vários países da América Latina, como
Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Nicarágua,
contou ao Terramérica a bióloga Verónica
Odriozola, coordenadora da Saúde sem Dano para a
região. Kathy e Verónica conversaram com o
Terramérica durante a conferência Hospitais do
Futuro, realizada no dia 9, em Santiago.
TERRAMÉRICA: Quais os impactos ambientais mais
importantes dos sistemas hospitalares?
KATHY GERWIG: Na Kaiser Permanente definimos cinco
áreas: energia e mudança climática, substâncias
químicas e produtos mais seguros, resíduos, água e
alimentação sustentável. Há doenças que são
resultado da exposição ambiental, como o câncer.
Os hospitais às vezes têm piso de vinil ou PVC, e
o vinil, quando incinerado, produz dioxinas que
são substâncias cancerígenas. Outro exemplo é a
energia. A proveniente do petróleo e seus
derivados é responsável pela mudança climática e
os efeitos desta na saúde incluem mais
enfermidades infecciosas e manifestações
meteorológicas severas que podem prejudicar as
pessoas, como ondas de calor, incêndios e
inundações. Os hospitais gastam energia 24 horas
por dia, sete dias na semana. Nos Estados Unidos,
são o terceiro maior consumidor de energia no
setor de edifícios comerciais. Então, esse consumo
causa a mudança climática e esta provoca
doenças... Devemos fazer um uso mais sábio da
energia para prevenir enfermidades.
TERRAMÉRICA: O que a Saúde sem Dano propõe em
matéria de resíduo hospitalar?
KG: Estamos interessados em dois aspectos: o
tratamento e o volume desse lixo. Sobre o
tratamento, a incineração é perigosa para a saúde
ambiental, e buscamos alternativas. Por exemplo,
em minha organização a maior parte dos resíduos
médicos é tratada com esterilização por vapor.
Quanto ao volume, fazemos três coisas: melhorar o
processo de compras, para evitar adquirir produtos
que serão jogados fora rapidamente, maximizar a
reciclagem e utilizar os materiais o mais
possível.
TERRAMÉRICA: Quais práticas se aplicam em energia
e alimentos?
KG: O nosso foco está em reduzir o consumo
elétrico e empregar mais fontes renováveis, como a
solar. Um exemplo específico é a adoção de
iluminação LED em todas as salas de cirurgia dos
hospitais da Kaiser Permanente. Estas lâmpadas não
consomem menos eletricidade, mas geram menos
calor, o que leva a um menor uso de refrigeração.
Na alimentação, nossos hospitais fazem compras
semanais de frutas e verduras na feira. Assim
apoiamos os agricultores locais, que têm a chance
de conseguir ganhos no fornecimento local, porque
cada hospital é um grande consumidor. O pessoal
hospitalar também pode adquirir esses produtos e,
em muitas comunidades, a feira abastece de
alimentos locais também as pessoas que vivem
próximas. Nos Estados Unidos, 3% das frutas e
verduras são orgânicas, mas aproximadamente 6% dos
alimentos que servimos aos nossos pacientes o são.
Além disso, todos os produtos lácteos em nossos
hospitais são de animais livres de hormônio do
crescimento agregado, e elaboramos cardápios com
menos carne.
TERRAMÉRICA: Que porção de sistemas hospitalares
do mundo aderiu à rede?
VERÓNICA ODRIOXOLA: É difícil dizer agora, porque
estamos na fase de somar e os novos membros o
fazem como fundadores. Mas há muitos grandes, como
o sistema público de saúde da capital do México,
ou o sistema nacional de saúde da Inglaterra.
Depois há hospitais avulsos ou associações
hospitalares.
TERRAMÉRICA: E na América Latina?
VB: Alguns países se destacam porque não tivemos
oportunidade ou capacidade de chegar a todos. Há
bastante progresso no Brasil, na Argentina e no
México, no Chile com a campanha contra o mercúrio,
que começou com alguns hospitais-piloto e depois
levou o Ministério da Saúde a adotar um
compromisso de gestão que inclui 90% das
instituições públicas. Também estamos trabalhando
na Costa Rica e na Nicarágua, onde o sistema de
saúde já está livre de mercúrio graças ao nosso
trabalho.
TERRAMÉRICA: Na recente reforma da saúde norte-
americana, estes temas estiveram presentes?
KG: Alguns deles. Talvez não de forma explícita,
mas há uma boa quantidade de oportunidades na nova
lei. Por exemplo, exige-se histórico clínico
eletrônico. Isto permite não apenas economia de
papel, mas também um cuidado da saúde mais
eficiente. Se você pode se comunicar com seu
médico por email pode economizar uma viagem de
carro até o consultório. Outro elemento
interessante da reforma é que proporciona
incentivos para prevenir doenças. Quanto melhor
formos em prevenção, menos recursos precisaremos
para tratar enfermidades.
TERRAMÉRICA: Suas campanhas se destinam a mudar
políticas públicas ou se conformam com a adesão
voluntária?
VO: Trabalha-se com os atores do sistema e também
procurando fazer com que a mudança se converta em
uma política pública, porque mal poderíamos ir
atrás de cada um dos hospitais para gerar
transformações. Entretanto, às vezes essas
mudanças funcionam melhor de baixo para cima, como
ocorreu no Chile com o mercúrio. Neste caso, nosso
trabalho agora é procurar fazer essa voz chegar às
atuais negociações internacionais de um convênio
sobre mercúrio, nas quais o setor da saúde diga
“estes produtos contêm mercúrio e podem ser
proibidos em nível global; nos já o provamos e
comprovamos”. * |