 | A bióloga María José Juan Jordá no mercado de leilão de pescados de Honolulu (Honolulu Fish Auction). Crédito: Angkana Rawichutiwan | Dialogues “Pesca de atum exige sacrifícios no curto prazo” Por Julio Godoy *
Os países vinculados à pesca do atum devem recordar que em troca de terem acesso a esses recursos têm a responsabilidade de gerenciá-los bem, afirma nesta entrevista a pesquisadora espanhola María José Juan Jordá.
BERLIM, Alemanha, 26 de dezembro de 2011 (Tierramérica).- Há cerca de dez anos é rotina ouvir ambientalistas e biólogos se queixarem da sobrepesca do atum, em particular do vermelho, à beira da extinção. A estas advertências somaram-se denúncias contra sistemas de controle de pesca de atum, incluindo as cotas anuais autorizadas a cada país e o esquema que as controla, a cargo da Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Oceano Atlântico (Cicaa).
As denúncias levaram a Cicaa a admitir, em novembro deste ano, que o sistema de controle das cotas, até agora baseado em informes escritos, facilita as fraudes, e a decidir sua substituição por um mecanismo eletrônico que será testado em 2012. Uma equipe de biólogos marinhos espanhóis e canadenses, liderados por María José Juan Jordá, acaba de confirmar as advertências sobre o risco de colapso dos atuns, em uma análise da população global de 26 espécies e outras relacionadas.
María José e os coautores do estudo concluíram que as reduções mais drásticas foram registradas nos atuns de água temperada e nas cavalas. Nos dois casos, as populações são vítimas da sobrepesca e estão à beira da extinção, afirma o estudo “Global Population Trajectories of Tunas and Their Relatives” (Trajetórias Mundiais de População de Atuns e Espécies Relacionadas), publicado no começo de dezembro pela Proceedings of the National Academy of Sciencies, dos Estados Unidos.
“Não há necessidade de reduzir o consumo de pescado”, mas os consumidores precisam ter boa informação e apoiar as indústrias que promovem a pesca sustentável, disse María José, pesquisadora da Universidade da Coruña e da canadense Simon Fraser University.
TERRAMÉRICA: As conclusões de seu artigo confirmam advertências feitas há anos por grupos ambientalistas. Quais são as espécies mais afetadas?
MARÍA JOSÉ JUAN JORDÁ: Nosso trabalho confirma que estão superexploradas várias populações de atuns de águas temperadas, o atum vermelho (Thunnus thynnus) do Atlântico leste, do Atlântico oeste e do sul, e o atum branco (Thunnus alalunga) do Atlântico norte. A biomassa atual destas espécies está em níveis abaixo do que os cientistas consideram seguros, e os níveis de mortalidade por pesca são maiores do que se considera seguro. Também mostramos que a maioria das espécies de atuns de águas tropicais estão “plenamente exploradas”. Isto é, os atuais níveis de biomassa e de mortalidade por pesca são “ótimos” para a maioria dessas espécies. Digo ótimos porque o objetivo da Organizações Regionais de Ordenação Pesqueira (Orop), incluída a Cicaa, encarregada da gestão e conservação das espécies, é reduzir a biomassa das populações ao nível que proporcione o “máximo rendimento sustentável”.
TERRAMÉRICA:- O que quer dizer?
MJJJ: Quando a biomassa de uma espécie diminui em x proporção – dependendo da espécie e de sua biologia particular, normalmente 50% a 60% – a população alcança seu nível mais produtivo, ótimo para maximizar as capturas. Em resumo, as espécies tropicais de atum estão perto do limite da sustentabilidade.
TERRAMÉRICA: Quais as espécies comercialmente mais atraentes?
MJJJ: Estimamos que a biomassa dos atuns de águas temperadas (três espécies de atum vermelho e uma de atum branco) diminuiu, em média, 80% entre 1954 e 2006. A biomassa dos atuns tropicais (patudo, vermelho e listrado) caiu 60% no mesmo período. O total de capturas globais de atuns em 2008 foi de 4,2 milhões de toneladas, das quais 94% correspondem a espécies tropicais, e apenas 6% a capturas de atuns de águas temperadas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A maioria das capturas procede de pescas “relativamente bem” geridas, mas há assuntos problemáticos que devem ser abordados com urgência.
TERRAMÉRICA: Quais são?
MJJJ: Com o crescimento da população mundial, aumentam a demanda por atum e o esforço pesqueiro. No entanto, nem a maioria das pescarias nem as capturas podem continuar crescendo porque as espécies já estão “plenamente exploradas” ou “superexploradas”. Uma solução, que deve ser abordada por todas as Orop, é reduzir o número de barcos e sua capacidade de retirar peixes do mar. As populações superexploradas precisam de planos de recuperação e, quanto existem, como no atum vermelho do Atlântico, é imperativo que sejam eficazes e cumpridos. Outras ferramentas, com listar as espécies na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres, são necessárias.
TERRAMÉRICA: Não seria também preciso mudar o critério de “otimização” das Orop?
MJJJ: Sim. O objetivo oficial das Orop é conseguir o máximo rendimento sustentável. Teoricamente, isto é muito fácil, mas na prática, para os cientistas, é muito difícil conseguir e inclusive de estimar, porque exige boa informação biológica das espécies, das capturas, o que nem sempre existe. Por isso, os níveis de referência estimados como objetivo para o rendimento máximo sustentável sofrem muita incerteza. Assim, as Orop devem modificar seus objetivos e definir novos critérios, onde haja pontos de referência limites, para evitar níveis de biomassa muito baixos e de mortalidade muito altos, e pontos de referência objetivos, com margens de segurança.
TERRAMÉRICA: A Cicaa admitiu que seu sistema de controle da pesca do atum é muito ineficiente e se compromete a reformá-lo. Acredita que haja vontade política dos países envolvidos para renunciar à pesca e ao consumo do pescado?
MJJJ: A Cicaa deu um passo muito positivo quando decidiu apoiar um sistema eletrônico para documentar as capturas. Entretanto, este passo tem de ser cumprido e tem de proporcionar dados de qualidade e verdadeiros. Para isto, é preciso cooperação de todos os países envolvidos neste tipo de pesca. Isto representa sacrifícios no curto prazo, com benefícios de médio e longo prazos, pois, se a pesca é bem gerida, as populações se recuperam, é positivo para a indústria pesqueira, para as populações de peixes e para os consumidores.
TERRAMÉRICA: E quanto aos consumidores, qual atitude seria ideal?
MJJJ: Não há necessidade de reduzir o consumo de pescado, em geral, mas precisamos de boa informação, um bom rótulo dos produtos, e apoiar as indústrias que apostam em uma gestão sustentável e as marcas ecológicas, com as do Marine Stewardship Council. * O autor é correspondente da IPS. |