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Habitantes do mar não esquecerão o Prestige
Por Tito Drago

Aves, peixes, moluscos e crustáceos devastados pela maré negra causada pelo vazamento de combustível nas costas espanholas demorarão anos para se recuperar, alertam especialistas.

MADRI, (Tierramérica).- Crustáceos, como o percebe (Policipes cornucopiae), afetados pelo afundamento do navio petroleiro Prestige diante das costas da Espanha, necessitarão, pelo menos, de dois anos para se livrarem da contaminação. Para outras espécies de peixes e moluscos a recuperação vai demorar quatro anos. Essa é a previsão de ecologistas, cientistas e líderes sindicais preocupados com as conseqüências no ecossistema marinho do vazamento de aproximadamente dez mil toneladas de óleo do Prestige, que afundou no dia 19 de novembro, depois de partir-se em dois quando era rebocado mar afora.

Submerso a 3600 metros de profundidade e a 250 quilômetros da costa da Galícia no Oceano Atlântico, o navio ainda guarda 60 mil toneladas de óleo que, segundo biólogos marinhos de prestígio, como o português Adriano Bordalo e Sá, terminarão por vazar. “O óleo é um produto refinado de lenta degradação que terá efeitos muito prejudiciais na cadeia alimentar. Devido ao seu caráter dissolvente, destruirá as paredes das células dos organismos marinhos mais sensíveis, e também afetarão outros”, disse Adriano.

O diagnóstico é compartilhado pelo especialista José Luís Garcia, da Associação de Defesa da Natureza, que acrescentou que o óleo contém grande quantidade de enxofre. O combustível é rico em hidrocarbonos aromáticos policíclicos, “semelhantes aos que causam câncer nos fumantes”, concluiu. Ele afeta as espécies que nadam na superfície marinha, mas, sobretudo, as que vivem na costa, como aves marinhas e pequenos organismos - caracóis, estrelas do mar, algas, ouriços - que fazem parte da cadeia alimentar, disse o diretor da Estação de Biologia da Marinha de La Coruña, Victoriano Urigorri.

Num dramático paralelismo, o dirigente da associação de produtores de mexilhões, Lino Lamoso, disse que a maré negra deixada pelo naufrágio do navio Mar Egeu, em 1992, impediu a captura do molusco durante três anos. A Confederação Européia de Sindicatos (CES), que reúne a maior parte das organizações sindicais do continente, advertiu que milhares de trabalhadores perderam a renda que conseguem com a pesca, o gado e a comercialização de mariscos e crustáceos.

O ministro do Meio Ambiente, Jaime Matas, insiste em que o litoral galego pode ficar limpo em seis meses, sempre e quando não houver novo vazamento de combustível. A atenção está, agora, voltada para as medidas no sentido de prevenir futuros acidentes. O ecologista Juan Lopez de Uralde, diretor do Greenpeace Espanha, pediu aos governos que estabeleçam leis para eliminar práticas e petroleiros inadequados e tornem mais transparente e controlável a indústria naval. O único aspecto em que parece haver consenso é o de que o desastre foi beneficiado pelo curso de navegação do Prestige muitíssimo perto da costa e por se tratar de um navio velho, de 26 anos, que carecia de proteção no casco duplo.

Segundo o Greenpeace, dos 3760 petroleiros que navegam pelos mares do mundo, 450 têm mais de 25 anos e a maior parte deles é de casco simples. Os Estados Unidos proibiram a entrada em seus portos desse tipo de embarcação, que transporta petróleo ou outras substâncias perigosas. A União Européia (UE) propôs essa proibição até 2015. A Espanha vai propor à UE, entre outras medidas, que seja reduzida essa moratória e limitado o trânsito de cargas perigosas nas 200 milhas da costa. Autoridades espanholas e francesas acertaram, no dia 26 de novembro, proibir a passagem por suas águas territoriais de petroleiros em mau estado.

* O autor é correspondente da IPS.

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