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Reportagem
Revive o fantasma do nemagon
Por Néfer Muñoz

Quase 40 anos depois, trabalhadores de plantações de bananas na América Central estão se mobilizando para exigir indenizações pelas seqüelas deixadas pelo uso do inseticida, entre elas esterilidade e câncer.

SAN JOSÉ, (Tierramérica).- - “Isto é um crime de lesa humanidade”, disse ao Terramérica Victorino Espinales, camponês nicaragüense de 48 anos que é o porta-voz de sete mil compatriotas com supostas seqüelas do nemagon, um temível inseticida que foi amplamente utilizado nas plantações de banana da América Central, nos anos 60 e 70. Esse produto, cujo principio ativo é o dibromocloropropano (DBCP), foi empregado no combate a pragas que atacam a banana, um dos principais itens de exportação da região.

Segundo os camponeses, o inseticida não acabou apenas com os insetos, como também com a saúde de homens, mulheres e crianças que trabalhavam nas plantações ou viviam próximo a elas, em todo o istmo. Diversas seqüelas, entre elas esterilidade e câncer, são atribuídas ao nemagon, de acordo com Espinales, presidente da Associação de Trabalhadores e Ex-Trabalhadores afetados pelo nemagon e fumazone, outro nome comercial do DBCP.

Camponeses de plantações de banana da Costa Rica e da Nicarágua saíram às ruas, nas últimas semanas, pedindo indenizações a companhias dos Estados Unidos. Várias dezenas de litígios estão em andamento em tribunais centro-americanos e norte-americanos. No banco dos réus estão Dow Chemical, Occidental Chemical Company e Shell Oil Company, fabricantes do nemagon, e também as Del Monte Corporation International, Standard Fruit Company, Dole Limited Company e Chiquita Brands, as multinacionais da banana que aplicaram o produto nas plantações.

Segundo Espinales, durante anos as empresas questionadas venderam ou utilizaram o inseticida sabendo que era prejudicial. Na verdade, os primeiros estudos confidenciais sobre os efeitos do DBCP, de 1958, foram efetuados pela Dow Chemical e pela Shell. Devido à sua volatilidade e persistência, a substância provocou lesões nos trabalhadores das plantações e nas famílias que viviam em comunidades próximas, alegam os queixosos. Somente na Nicarágua existiriam 110 mil afetados diretos e indiretos.

“Este é um exemplo de como os inseticidas podem prejudicar a saúde pública”, disse ao Terramérica a microbiologista Ana Ramirez, da Costa Rica. No início dos anos 80, Ramirez realizou um estudo que conseguiu vincular o aumento de problemas de esterilidade a um maior tempo de exposição ao nemagon.

O DBCP é uma substância altamente reativa que se choca com as moléculas de ADN e pode ocasionar mutações genéticas, explica Ramirez. Quando essas alterações ocorrem em células sexuais, surgem danos no tocante à reprodução ou esterilidade. Quando se manifestam em outras células pode dar origem ao câncer.

Em 1977, foram descobertos vários casos de esterilidade em trabalhadores de uma das fábricas de DBCP na Califórnia, Estados Unidos. Uma pesquisa norte-americana com coelhos, publicada em 1980, revelou que a exposição ao DBCP produzia atrofia parcial ou total de espermatozóides e testículos. Estas conclusões são muito parecidas com as que Ramirez tirou na Costa Rica, embora esta tenha sido feita com humanos expostos.

O nemagon foi retirado dos Estados Unidos em 1979 pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), alegando para isso os efeitos tóxicos do inseticida nos cromossomos bem como sua persistência no meio ambiente e sua capacidade de contaminar o ar e a água. A Costa Rica proibiu seu uso em 1978, mas, segundo os sindicatos de trabalhadores em plantações de banana, em muitos lugares da América Central o nemagon continuou sendo utilizado na década de 80, e as empresas enterraram grandes recipientes com o veneno, cujos efeitos contaminantes continuam.

As mulheres centro-americanas afetadas pelo nemagon apresentam quadros de abortos freqüentes, câncer de útero e mamas, problemas no fígado e nas articulações. Nos homens, as seqüelas são esterilidade, redução de peso, perda do cabelo e manchas na pele.

“Trata-se de uma verdadeira tragédia”, disse ao Terramérica o procurador-geral da Nicarágua, Francisco Fiallos, segundo o qual o Estado nicaragüense dará total apoio às demandas dos afetados. Nos litígios interpostos na Nicarágua, foram estabelecidas três categorias de reclamações: US$ 100 mil para cada homem estéril, US$ 50 mil para quem sofre de problemas severos em seus espermatozóides, e US$ 25 mil para vitimas de outras enfermidades. Os prejudicados que chegaram a acordos extrajudiciais receberam compensações de apenas US$ 100.

Entretanto, Fiallos adverte que o Estado não pode embargar bens das empresas questionadas que se retiraram do país depois de 1979, quando o poder foi tomado pela Frente Sandinista de Libertação Nacional. A via judicial poderia ter mais êxito nos tribunais norte-americanos. O representante local da companhia Chiquita Brands não quis fazer declarações ao Terramérica, assinalando que a questão está sendo tratada na sua matriz, nos Estados Unidos.

* O autor é correspondente da IPS.

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