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O Brasil busca carne mais tenra
Por Mário Osava

Em 18 meses, cientistas brasileiros esperam ter o conhecimento genético que lhes permitirá criar um gado mais resistente a enfermidades e com melhor carne.

RIO DE JANEIRO., (Tierramérica).- Um gado mais resistente a enfermidades, sexualmente mais precoce e com uma carne mais tenra é o propósito do projeto Genoma Funcional do Boi, que pretende dar ao Brasil sustentação tecnológica para uma futura liderança no mercado mundial de carne bovina. As pesquisas sobre genoma registraram um grande avanço no Brasil desde 1997, quando foi decifrado o material genético de várias bactérias e plantas de interesse agrícola, bem como da origem genética de alguns tipos de câncer humano.

O projeto também abre uma nova estratégia, pois procura identificar as funções de genes importantes para a atividade pecuária, disse ao Terramérica seu coordenador, Luiz Lehmann Coutinho, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. No prazo relativamente curto de 18 meses pretende-se cumprir todas as fases necessárias para alcançar um conhecimento genético que possa ser patenteado e utilizado na criação de gado. “Muda a dinâmica e o foco” da pesquisa, buscando resultados práticos e rápidos, explicou Coutinho.

Assim, os cientistas não estão atrás de descobrir as milhões de seqüências de bases químicas do ADN (ácido desoxiribonucleico) bovino, o que requereria uma seqüência do genoma. Apenas buscam limitar-se a 3% do genoma bovino, escolhendo os tecidos associados à reprodução, ao sistema imunológico e à qualidade da carne. Embora tais tecidos sejam conhecidos, não são os genes determinantes das características pretendidas. Este êxito permitirár maior produtividades e qualidade da carne, um item no qual o Brasil teria melhores condições de competir com os grandes produtores de gado de corte que de leiteiro.

A pesquisa se centrará exclusivamente na raça nelore, originária da Índia e adaptada às condições climáticas tropicais, e que compreende 80% das 170 milhões de cabeças de gado do país, em estado puro e mesclado. O plano permitiria superar limitações do nelore e conquistar a liderança no mercado mundial de carne, afirmou Jovelino Mineiro, dono da empresa Central Bela Vista Genética Bovina, que financia o projeto em partes iguais com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ao custo de US$ 1 milhão.

A carne do nelore não é tão macia quanto a das raças produzidas na Argentina ou na Europa. A cria nasce com a mãe tendo entre 2,5 e três anos de vida, uma desvantagem em relação aos dois anos das raças européias, disse Mineiro. A meta é torná-lo tão precoce quanto seus competidores, afirmou Coutinho. No Brasil existem animais com capacidade genética, mas afetada por distintas condições ambientais, de alimentação e de manejo. O conhecimento genético tornará mais eficiente a seleção, adiantando a reprodução, explicou. Identificar genes dessa precocidade sexual interessa à Central Bela Vista, uma das maiores produtoras de sêmen e embriões bovinos no Brasil.

As pesquisas também visam conhecer genes que ajudarão a selecionar bovinos naturalmente mais resistentes. Isso reduzirá o uso de medicamentos e venenos contra parasitas, a favor de uma carne mais saudável, livre dos resíduos químicos que enfrentam barreiras sanitárias no comércio internacional, disse Coutinho. Em relação à qualidade, pretende-se uma boa composição de gordura, que permita que a carne não endureça ao ser resfriada e tenha o sabor e a maciez adequados.

Porém, o desenvolvimento científico não incluirá processos de transgêneses, isto é, a introdução de genes de outras espécies, esclareceu Coutinho. O cientista destacou como um “desafio interessante” a iniciativa conjunta de uma empresa, uma instituição estatal de fomento tecnológico e universidades às quais pertencem os 20 laboratórios encarregados das pesquisas.

* O autor é correspondente da IPS.

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