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The ocean's waves transformed into electricity.
Crédito: Mauricio Ramos
Reportagem
O Brasil renova energia montado nas ondas
Por Mario Osava

Não só os surfistas desfrutarão das grandes ondas no Brasil. Estas também serão fonte de energia para 200 famílias no Estado do Ceará, através de um projeto pioneiro no continente.

RIO DE JANEIRO, (Tierramérica).- Se tudo caminhar bem, o Brasil vai inaugurar, no segundo semestre de 2006, a primeira central elétrica da América que aproveitará a força das ondas do mar, no Estado do Ceará, com potência de 500 quilowatts. O projeto, que pode gerar energia suficiente para 200 famílias, é desenvolvido pela Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que já produziu um modelo reduzido de demonstração em seu Laboratório de Tecnologia Submarina (LTS).

A construção será possível graças a um convênio assinado no dia 2 de fevereiro entre o governo do Ceará e a Eletrobrás. “O Ceará apresenta condições ideais, porque ali sopram os ventos alísios que propiciam boas ondas com regularidade”, explicou ao Terramérica Segen Estefen, coordenador do projeto e chefe do LTS. Com uma tecnologia inovadora, diferente das que estão em desenvolvimento em outros países, esta fonte alternativa e renovável será competitiva, com custo equivalente ao das hidrelétricas já construídas no Brasil e 30% menor do que o da energia eólica, segundo Estefen.

A nova tecnologia será instalada na costa atlântica, onde vivem cerca de 70% dos 174 milhões de brasileiros, economizando linhas de transmissão que encarecem a energia hidrelétrica, proveniente de rios distantes dos centros consumidores. Com 8,5 mil quilômetros de extensão costeira, o Brasil tem nas ondas um enorme potencial. Estefen considera possível uma participação de 15% na eletricidade consumida no país “dentro de dez a 15 anos, se o governo decidir impulsionar um programa”. Estima-se que a potencialidade total dos oceanos do planeta é de um a dois terawatts, o suficiente para atender toda a demanda energética mundial, mas a maior parte não é economicamente aproveitável. Usar de 10% a 20% “já seria colossal”, as fontes alternativas “sempre serão complementares”, afirmou o especialista.

A central projetada por sua equipe emprega flutuadores que, movidos pelas ondas, ativam uma bomba hidráulica que puxa a água e a joga em uma câmara hiperbárica, desenvolvida para testar equipamentos submarinos de exploração e extração petrolífera em águas profundas, e que suporta altíssimas pressões, como as existentes a cinco mil metros de profundidade no mar. Dessa câmara são liberados jatos de água em alta pressão que substituem as quedas d´água de centenas de metros para mover as turbinas acopladas a geradores de eletricidade.

O invento aproveita tecnologias já existentes, sobretudo as desenvolvidas na atividade petrolífera de águas profundas, em que o Brasil conseguiu os maiores avanços em relação a outros países. Os equipamentos estão disponíveis e podem ser totalmente feitos no país, barateando o projeto, segundo Estefen.

Outros países mais avançados em energia de ondas, como Grã-Bretanha, que já tem dois projetos operando e cinco em desenvolvimento, usam a tecnologia de colunas de água oscilante. Trata-se de uma construção onde entra a água e sobre a qual se instala uma espécie de tubo, como um “copo de boca para baixo”, onde a subida da água quando vem a onda empurra o ar para cima fazendo girar a turbina. Ocorre o mesmo no movimento inverso, quando a água desce, explicou ao Terramérica Eliab Ricarte, cuja pesquisa de doutorado contribui para o projeto brasileiro.

Porém, essa tecnologia apresenta variações grandes, com a rotação da geradora aumentando até o dobro de um momento para outro, segundo o tamanho das ondas de seu movimento. O modelo brasileiro, por sua vez, tem a vantagem da regularidade, destacou Estefen. Na Dinamarca, se desenvolve a tecnologia do “Wave Dragon” (Dragão da Onda), com a qual se busca construir uma central maior, de quatro megawatts. Para isso, são necessárias ondas altas, mar adentro, para girar as turbinas com a mesma força da água. Além disso, não pode operar no verão, quando não existem grandes ondas, ressaltou o especialista. Também Austrália e Japão se preparam para aproveitar a energia das ondas.

No mundo em desenvolvimento, além do Brasil, ela é estudada por Índia e China. No momento, são feitos protótipos de pequena capacidade, de até um megawatt. A contribuição efetiva para a geração comercial é coisa para o futuro. O interesse por essa alternativa se intensificou nos últimos cinco anos, devido, sobretudo, ao peso que ganharam as questões sobre mudança climática na agenda internacional, segundo o Conselho Mundial de Energia. Outros fatores que incidiram foram o Protocolo de Kyoto, que ainda não entrou em vigor mas que fixa metas de redução dos gases causadores do efeito estufa, a alta nos preços do petróleo e a decisão britânica de investir na energia das ondas a partir de 1999.

O modelo japonês se chama “Mighty Whale” (Baleia Poderosa), e usa a coluna de água oscilante em um navio, aproveitando a maior potência energética das ondas em alto mar. Foi vendo um vídeo sobre essa experiência que Ricarte decidiu dedicar sua tese de doutorado à energia oceânica. A opção brasileira é construir pequenas centrais, de um a 30 megawatts, reduzindo ainda mais o já baixo impacto ambiental. Também existe a possibilidade de desenvolvimento para “usos compartilhados”, como aproveitar as centrais para proteção costeira, reduzindo a erosão provocada pelas ondas, ao abrandar sua força. Em alguns casos, pode-se modificar o fundo do mar para obter melhores ondas e, assim, também beneficiar a prática do surf, afirmou Ricarte.

* O autor é correspondente da IPS.

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